É preciso ter consciência dos próprios limites. Infelizmente, para alcançar tal consciência muitas vezes precisamos ultrapassar esses mesmos limites, mas isso é algo que pode nos levar a situações trágicas, extremas e, sinceramente, não recomendo. Sou, mais uma vez, pelo caminho mais seguro: todo mundo deveria se submeter voluntariamente a um processo de reflexão e autoconhecimento. Digo isso porque muitas coisas, na vida, são mensuráveis, apesar de seu valor subjetivo, e precisam ser avaliadas de forma objetiva.

Veja a paixão, por exemplo: é um sentimento com o qual estamos familiarizados. Se não todos, pelo menos a maioria de nós. Avassalador, inebriante, faz tudo o que não é fruto dela perder o sentido, ter sua relevância reduzida a nada, por mais relevantes que sejam na prática. Parece, digamos, um feitiço. Tente fazer um apaixonado enxergar o monstro que é objeto de sua paixão, e tudo o que você conseguirá será uma frustração somada a uma verdadeira perplexidade. No ocidente costumamos confundir esse sentimento perturbador com amor, mas não é bem assim, e no fundo todos nós sabemos disso, mesmo que apenas intuitivamente. Os gregos antigos, que eram superiores em tudo, sabiam diferenciar bem: a paixão é Eros, o cego ao qual nos referimos quando queremos dizer que o amor nada enxerga. É o contrário: o amor enxerga bem, vê com clareza as coisas como elas realmente são. É a paixão que é cega, pois é fruto de idealização e fantasia enquanto o amor, bom, é pautado em coisas mais sólidas. Naturalmente, há muitos casos em que o amor nasce da paixão. A paixão, uma vez que seu fogo míngua — e não se engane: a perenidade da paixão é uma impossibilidade estrutural, por mais que ela pareça “eterna”, na prática ela só é “eterna enquanto dura” — , só tem dois destinos possíveis: a desilusão, o esfriamento e a indiferença, e uma das formas mais tranquilas de amor, philos, que tende a gozar de estabilidade, permanência e, ao contrário de eros, se fortalece com o tempo.

Em um dos meus contos, quando confrontado pela namorada sobre a natureza de sua relação com a amante, e se ele ainda a ama, o personagem responde:

“Eu doaria um rim a você, mas não doaria a ela.”

Creio que isso estabeleça uma diferença na natureza dos sentimentos que o tal personagem nutre pela namorada: são grandezas distintas que se aplicam a casos diferentes, mas são praticamente impossíveis de serem compreendidos, apesar de sua simplicidade, por alguém que não julgue com clareza as relações humanas.

É por esse mesmo motivo que outro personagem, de outro texto, afirma, ironicamente — ele é um cínico dos tempos modernos — que sempre que vê um casal sorridente se pergunta quem anda traindo quem, ou quem o fará primeiro.

O que ele tem é a consciência de que tudo o que se espera do amor — segurança, estabilidade, confiança, intimidade, amizade — é na verdade o assassino da paixão, que se nutre de coisas como mistério e fantasia. Ele também sabe que não somos uma espécie monogâmica — a monogamia, ele diz, não é lá muito comum entre os primatas, e apesar de haver exceções contextuais entre uma e outra espécie, essas só aplicam aos homo sapiens em caráter muito excepcional, e normalmente têm relação com contextos muito específicos (hormônios, para citar um único exemplo).

Então por que alguns de nós arriscamos essa troca? Veja bem: não estou falando de casos em que o amor acabou, nem de relacionamentos abusivos — onde troca, transferência, travessia seria uma urgência — , mas de casos em que o amor ainda existe, persiste, vai muito bem, obrigado: há tudo aquilo lá, mais uma vez: segurança, estabilidade, confiança, intimidade, amizade. Há mais que isso, muitas vezes: há um amor compartilhado pelos filhos, o gozo legítimo da presença um do outro, um respeito e compreensão mútuos não apenas por suas histórias individuais, mas também por sua história em comum. Há, ainda, alguma admiração intelectual, e até mesmo aspirações compartilhadas, bem como todos os “detalhes tão pequenos de nós dois” que todo casal constrói numa relação duradoura: o dialeto apenas compreendido por eles, as referências pessoais — músicas que compartilham, filmes que viram juntos, livros, piadas internas, brincadeiras, momentos em que, doentes, cuidaram um do outro, e um rol infinito de coisas que só fazem sentido quando estão juntos.

É o que leva muitos casais à terapia: amo meu parceiro, mas não o desejo.

E é o que leva muitos terapeutas a responderem isso com a asserção de que se ainda há amor envolvido, então vale a pena insistir, tentar corrigir o que não está funcionando, sanear a relação. É óbvio que todos os envolvidos têm a consciência de que “nada será como antes”, mas isso não exclui a possibilidade de que seja melhor, mais sólido, ou mesmo mais valioso, como a conhecida arte japonesa do kintsugi, que remenda vasos quebrados com fios de ouro, tornando-os muito mais valiosos do que eram antes de serem destruídos.

Mais uma vez: por que então muitos arriscam essa troca quando o que têm do outro lado é uma mera paixão, aventura, fantasia?

Não creio que seja uma decisão racional. É impossível que seja. E o ocidente alimentou o mito de que “devemos seguir o nosso coração” quando na verdade o coração sabe tanto acerca de qualquer coisa quanto uma lesma sabe sobre engenharia aeroespacial. Por isso sou obrigado a recorrer à velha metáfora da balança: se num dos pratos você coloca tudo o que tem, e de outro tudo o que você acha que pode ter apenas porque acredita nisso como um apostador viciado no poker que arrisca, contra todo o bom senso, sua casa, seu carro, sua poupança, o dinheiro da faculdade dos filhos, você não está em pleno gozo da razão, de modo que precisa, de algum modo, ser levado a isso. Não é tão difícil de compreender se você estiver do lado de cá da fantasia.

Mas o que dizer dessa pessoa? Até onde ela, que permanece com os pés no chão, deve lutar para desfazer o encantamento ou esperar que ele acabe? O que ela tem que suportar? Perdoar? Humilhações, comparações descabidas, abjeção, desrespeito, a dor de ver que o outro já não a enxerga como ela é, isso para não falar em desprezo e, pior, ações e condutas tomadas para satisfazer única e exclusivamente os anseios do objeto da fantasia, que se vale de seu status para manipular, desvirtuar o real, causar danos irreparáveis apenas porque pode e apenas porque não é atingido por eles. É por isso que iniciei esse texto falando de fronteiras: o que cada um consegue suportar é relativo, o que cada um está disposto a perdoar também é. E é preciso ter consciência dos próprios limites: fronteiras são comuns a todos, algumas apenas são mais amplas que outras.

Escritor. Autor de A orquestra dos corações solitários, Para Elisa e Colapso. Um pé nos anos 50, outro nos anos 2000.