Penso que talvez todo escritor deva uma resposta a Orwell. Essa é a minha tentativa. Para me aproximar dela, devo começar por uma lembrança antiga, sem hesitação: é 1997 e eu tenho doze anos. No bairro onde moro choveu o dia inteiro, e as ruas, que com exceção das avenidas principais são de barro batido, estão enlameadas. Por algum motivo que hoje me escapa, ao invés de brincar lá fora eu me isolo em casa, e admiro os raios de sol que atravessam as frestas em nosso telhado. Analiso com interesse e fascínio aquela pequena manifestação cotidiana de uma beleza estranha, que me toca profundamente, mas que estou longe de compreender. Penso então que se algum dia eu quisesse fazer com que outra pessoa percebesse as mesmas coisas que percebo ali, naqueles pequenos raios de sol, eu não saberia o que fazer. Dizer “Ei, veja que bonito!” é algo que certamente não serviria, e eu seria tomado por excêntrico.

Acontece que desconheço a arte, tenho pouca intimidade com livros, literatura, poesia. Em minha família não há contato algum com qualquer forma de manifestação artística, exceto talvez por músicas populares, que meus pais ouvem no rádio, e filmes de ação, que meu pai aluga de vez em quando na locadora do bairro em fitas VHS. Em nenhuma dessas pequenas formas de arte, digamos assim, eu vejo o mesmo tipo de beleza que vejo ali, naqueles pequenos fachos de luz. Penso: “Deveria haver uma forma de guardar essa beleza, para que eu pudesse mostrá-la de vez em quando, ou revê-la sempre que tivesse vontade.”

É minha primeira intuição, a primeira de que me lembro, de que há em mim uma necessidade de expressar as coisas que sinto da forma como as sinto, as coisas que vejo da forma como as vejo.

Mas não vou além. Sou uma criança limitada pelas circunstâncias. Moro em um bairro operário que foi criado apenas para que as fábricas locais não ficassem sem mão de obra barata. As perspectivas, ali, não existem. Não para um artista. Não para um escritor. Não naquela época.

Aquela ânsia estranha, contudo, permanece. É internalizada. E volta um ano depois, quando escuto por acaso uma música de Legião Urbana que diz algumas coisas que consigo compreender bem e que me fazem pensar algo como “Ei, mas é exatamente assim que eu me sinto!”

Então aquilo era possível através da música, concluo, e das letras. Decido, no ato, virar músico, montar uma banda de rock, escrever letras grandiloquentes que falem sobre temas universais através da minha percepção pessoal.

Com alguns amigos, monto a banda Atômicos, que logo depois se torna Legionários do Rock. Não sei nada sobre música, mas estou disposto a aprender. Começo a estudar violão, aprendo a tocar guitarra, esboço algumas letras do tipo Meu Amor Me Deixou. Uma daquelas letras cantava: “Vejo tristeza, infelicidade, falta de vontade…”, uma melancolia pueril que ainda me acompanha (trocaria hoje, contudo, falta de vontade por apatia, em sacrifício da rima e em favor da objetividade estilística).

A banda quase não tem identidade definida: tocamos covers, ninguém parece fazer a menor ideia do que está fazendo, nossas músicas autorais são monotemáticas, mas por algum motivo inexplicável chegamos a fazer um pequeno sucesso local. É um sucesso estranho, considerando que quase não tocamos em lugar nenhum, que nossos instrumentos são emprestados, e que somos muito, muito ruins. Mas é algum tipo de sucesso mesmo assim. As pessoas nos veem e sabem que “aqueles são os caras daquela banda, os Legionários do Rock”, e algumas garotas da escola até conhecem de cor algumas das nossas músicas.

“Toca aquela música, Infelicidade Eterna.”

Infelicidade eterna, deus do céu.

Uma hora a banda acaba. São vários os motivos, mas o principal é que outras bandas aparecem, algumas mais profissionalizadas, e um ou outro músico mais prodigioso acaba por procurar futuros mais promissores. Saio dessa primeira experiência com os tendões e as cordas vocais destruídos por uma ambição doentia, mas muito mais consciente do que eu quero enquanto artista. Continuo a escrever letras, mas sem poder tocar violão e com as cordas vocais incapazes de alcançar certas notas, desisto da música. É quando redescubro, por fim, a Literatura, com a qual mantinha então um contato distante: lia poesias para melhorar minhas letras, e lia boas histórias que me caíam em mãos quase ao acaso. Não possuía outros critérios.

Na Literatura, descobri todo o Universo do possível. Óbvio que minha paixão pela música nunca cessou, jamais cessará, mas foi a palavra escrita, a frase bem dita, o verso, o ritmo, a história bem contada, os personagens complexos, a estrutura narrativa, o estilo, toda a versatilidade do texto em todas as suas variáveis que ocupou o lugar que, antes, pertencia exclusivamente àquela que ainda considero a maior e mais pura de todas as artes. Mas a música também está lá. Escrevo, como costumo dizer, de ouvido, e talvez por isso muitos leitores costumem elogiar meus diálogos.

Na poesia, busco a objetividade de um tapa na cara, a percepção súbita de um corte de faca acidental: Eu sangro. Minha pele arde, queima. Meu sangue é vermelho, eu sei, mas veja, eu nunca tinha percebido o tom, o brilho, a textura… e o que dizer então desse cheiro de ferrugem?

E obviamente não desvinculo a Literatura do ato político, mas não a limito a isso. Seria um reducionismo injusto e ingênuo de minha parte: não escrevo por isso. Escrevo porque não há outra opção. É um ato, antes de qualquer coisa, íntimo. E uma forma de autopreservação.

Por isso insisto. E enquanto a vida me permitir, continuarei escrevendo. E também por isso não acho cafona quando alguém diz que escreve, pura e simplesmente, por amor.

Escritor. Autor de A orquestra dos corações solitários, Para Elisa e Colapso. Um pé nos anos 50, outro nos anos 2000.